ENTREVISTAS

Entrevista: Franz Ventura

Um jovem mineiro que fala de música clássica com a mesma empolgação de uma adolescente falando de videogame. Ele começou os estudos musicais um pouco tarde – segundo ele mesmo – mas nada que uma boa dose de talento e esforço não resolveram.

Em seu canal no Youtube, onde fala sobre música, compositores, versões, e faz pequenos vlogs musicais. Franz agora já com mais de 50 mil inscritos, acumula mais de 3 milhões de visualizações e recebe muitos comentários sobre seu conteúdo e fica claro que seu talento é capaz de atravessar as telas dos celulares e computadores.

Com muito bom humor e sempre um sorriso na voz, o  pianista e youtuber Franz Ventura, falou em entrevista exclusiva, sobre carreira na música, apoio da família, inspirações e sobre o uso da internet na difusão da música clássica.

CSP: Você começou a estudar piano aos 14 anos. Você acha que começou tarde?

FV: Sim, consideramos relativamente tarde depois dos 6 anos porque é a idade recomendada. Quando a pessoa começa a estudar um instrumento e consequentemente estudar música depois dos 10 anos a gente considera tarde, porém para aprender música você não precisa ser jovem, mas criança aprende mais rápido. Considero que comecei relativamente tarde.

CSP: No início dos seus estudos, qual foi sua maior dificuldade?

FV: Acredito que a maior dificuldade da maioria das pessoas é a ansiedade de querer tocar logo. É difícil entender as etapas, eu pulei muitas etapas que me dão dificuldade até hoje. Claro que, tem outras dificuldades específicas que você tem pelo caminho, mas a maior é essa.

CSP: Em qual momento da sua vida você teve certeza que a música (em especial a clássica) faria parte dos seus dias?

FV: No momento que ouvi pela primeira vez “Sonata Ao Luar” de Beethoven. Minha professora tocando ali na minha frente, naquele momento tive certeza que queria tocar pra sempre. Não tive a menor dúvida.

CSP: Sabemos que a música clássica não é um estilo musical muito apreciado no Brasil devido a diversos fatores: políticos, culturais, econômicos… O que você acredita que pode ser feito para acessibilizar a música clássica em nosso país e principalmente para nossa juventude?  

FV: Não acho que a massa necessariamente aprecia música, essa música que a massa consome é puramente para entretenimento. Eles não necessariamente apreciam. A música clássica atravessou gerações e vai continuar atravessando e nunca vai morrer, a música clássica fica porque ela é a base, tudo vem dela. Não acredito que ela não seja acessível, mas acredito que a forma que ela é apresentada para sociedade atualmente não é muito atrativa. Por isso tento fazer algo diferente, meio que o “doidinho do piano”, justamente para despertar interesse. Não adianta contar a história de um compositor com voz de “palestra”. Qualquer pessoa que ouvir um Chopin, vai se emocionar, qualquer pessoa, seja ela milionária ou morador de rua. Quando você apresenta a música clássica de forma acessível as pessoas amam.

CSP: Seu último trabalho foi o “Trilogia para Danilo”. Já temos data para um novo lançamento?

FV: Ainda não tenho nada confirmado, mas tem um projeto que estou trabalhando, só que não conseguia achar um contexto para lançar, com o canal achei, porque lá tenho o espaço para falar sobre esse álbum que vai se chamar “Platônicos” e vou poder explicar e poder contar a história de cada um desses meninos, são 7 rapazes com quem tive um amor platônico. Nunca rolou nada, mas eu sofri horrores por eles. Ainda não sei se vou nomear as faixas com os nomes deles, mas é um projeto que sonho grande com ele.  


Leia também: ENTREVISTA: SAULO VASCONCELOS


CSP: Você morou um tempo em São Paulo e retornou para Minas. Essa mudança faz parte de um processo criativo para o novo álbum? Se não, o que motivou essa mudança?

FV: Morei em São Paulo por 3 anos, em uma kitnet com uma avenida super movimentada bem em frente e foi lá que consegui comprar meu piano – demorei 10 anos pra juntar dinheiro –  e lá comecei a tocar na frente daquela avenida movimentada e conviver com aquelas pessoas frias é aquela coisa né? São Paulo, não existe amor e nem inspiração, no caso. Eu não mudei, só voltei atrás de inspiração. Arranjei a casa mais afastada possível de uma avenida movimentada, agora estou em uma casa cercada de mato e silêncio. Eu precisava compor, fiquei em São Paulo por 3 anos e não conseguia compor. Aqui a inspiração volta, é um outro ar.

CSP: Você acredita que o amor seja sua maior inspiração?

FV: Queria muito acreditar que é isso. Todas as minhas composições dediquei para alguém que eu amava de alguma forma. Muitos deles eu amava sozinho. O sentimento que mais me inspirou foi a vontade de ser amado né? Consequentemente a tristeza profunda, acho que o sentimento que mais me inspira e inspirou foi a tristeza.

CSP: Todas as músicas do teatro musical nascem de a partir do piano. Os atores recebem as partituras e a partir daí eles começam a estudar as  músicas que vão contar aquela história. Além de assistir seus vídeos ensinando ler partitura (risos) qual conselho você dá para os atores que estão começando os estudos em música para teatro musical?

FV: É lindo o piano ser o instrumento mais completo né? A partir dele são criadas músicas  maravilhosas; ele é muito útil para os ensaios, o musical pode ser apresentado com uma orquestra, mas os primeiros ensaios é sempre o piano e os atores.

Meu conselho é: persistência, muito ensaio e muito estudo. É fácil desistir e não seguir em frente, você acaba ficando pressionado, só que o resultado vem com muitas horas sentado estudando.


Leia também: ENTREVISTA: FIZEMOS UM ROLÊ!


CSP: Aceitaria um convite para tocar em uma musical? Fantasma da ópera, Wicked, Cats, Sunset Boulevard ou Aladin?

FV: Super aceito! Inclusiva todos os musicais que você citou eu amaria muito acompanhar no piano. Porém, sei que é um trabalho muito grande, porque as partituras para musicais e músicas orquestradas, geralmente são dificílimas, é como colocar todos os instrumentos em um piano só. São arranjos difíceis, teria que passar meses estudando, fora os ensaios.

CSP: Abrir as portas da sua vida para o Youtube, pode ter um preço alto como um excesso de exposição. Você em algum momento se sentiu arrependido de se colocar nas mídias digitais tão abertamente? E como você lida com os “haters”?

FV: Nossa, acho que pelo contrário. A internet é o lugar perfeito para me expor livremente como artista, raramente faço um conteúdo pessoal, quando faço é sempre algo ligado a música. Eu não uso a internet para ser um “blogueiro” a internet me deu liberdade e ela é para todo mundo.

Quanto aos “haters” a gente meio que já espera e desvia o olhar. Não tem porque dar importância a isso. Já que ninguém está assistindo obrigado e você não está fazendo mal a ninguém.

CSP: Juntar as profissões músico e influenciador, tem dado certo?

FV: Sou músico de palco, apresentação, conservatório, recitais e concertos há mais de 10 anos e digital influencer tem menos de 2 anos, juntei essas duas coisas a partir do momento que percebi que as pessoas estavam olhando para as telas dos celulares. É lá que eu tinha que ir. E tem dado certo,nesse sentido deu certo, porque estou conseguindo mostrar as minhas composições, minhas interpretações, meu conhecimento e para um público muito maior do que tinha antes, muito maior, nunca imaginei ter esse público. Você não consegue dar aula para 3 mil pessoas em um dia assim, tão fácil. Para toda parte do Brasil e em Portugal também!

Quero sair das telas um pouco também, quero dar masterclasses, quero dar recitais no mesmo formato que faço no canal pro pessoal do canal me conhecer e pessoas que querem ter uma aula comigo ou conhecer meu trabalho de perto e ao vivo. Isso é muito importante, palco não morreu pra mim. Ainda vou voltar.
Acredito que daqui um tempo vamos poder fazer essas “turnêzinhas” por aí. Vou adorar!

CSP: Quando é que vai sair o vídeo de você tocando RBD? (Os fãs, no caso eu mesmo querem saber)

FV: Você é o rapaz que sempre me pede? Não acredito! Tem um rapaz que me pede tem muito tempo. Eu fazia umas lives no facebook e o pessoal pedia nos comentários para tocar Rebelde, o que acontece é que preciso fazer os arranjos e para isso preciso absorver rebelde. Vou fazer sim, pode esperar um video medley de Rebelde, mas primeiro preciso fazer um laboratório de Rebelde.

CSP: Seu jeitinho carinhoso de falar com o Drogo, já despertou amores e ódios no insta, né?  Como surgiu essa tal vozinha do amor?

FV: Essa era a última coisa que pensei que iria pegar, e pegou! As pessoas me pedem pelo direct e falam que tenho que fazer todo dia. Minha família odiava né? Eu falava o tempo todo assim, com qualquer bicho. É natural e saí naturalmente desde criança. Meu irmão chama de voz do demônio, teve um menino no instagram que chamou de voz de bruxa. Não vou parar, até porque o Drogo ama.

CSP: Como você se sente sabendo que 34.7 mil estão no insta querendo lhe ouvir?

FV: No instagram não divulgo tanto o piano como eu gostaria. Até porque é diferente, o tempo do storie ou do próprio post. No Youtube é mais estimulante lançar um trabalho pianístico, musical, porque não tem esse limite de tempo.

Então, você grava, edita, posta e trabalha aquilo de maneira muito mais cuidadosa. Parte de mim sabe que não dá pra agradar todo mundo, mas nesse sentido sou muito seguro. Interpreto da maneira como quero tocar quem está ouvindo. Quero que a pessoa se sinta tocada e as vezes fico pensando “será que vou conseguir tocar as pessoas?” Aí você vou nos comentário e a pessoa fala “nossa, chorei aqui!”, aí eu fico super satisfeito. Era isso que eu queria.


Leia também: ENTREVISTA: FERNANDA RIBEIRO


CSP: Essa visibilidade causa algum impacto na sua vida?

FV: Total! Não faz sentido uma pessoa estudar algo e performar para as paredes.O maior impacto que tem são os aplausos. Esse impacto de pessoas te ouvindo, na internet não é diferente, os números mostram. São pessoas e me ouviram. Minha mãe não entende e fala “Ah, mas você não está tocando em nenhum lugar.” Outros tempos, o impacto é virtual, mas é o mesmo.

Escolha um:

  • Frédéric Chopin
  • Ludwig van Beethoven
  • Wolfgang Amadeus Mozart
  • Johann Sebastian Bach

Você quase fez o top 4 perfeito de compositores. Eu só colocaria Mozart por último e só colocaria Beethoven primeiro e Chopin em segundo lugar. Na verdade Beethoven e Chopin deveriam ficar em primeiro lugar. Porque um é o Deus da música, da sinfonia e da perfeição e ou outro é o extremo. Nada é melhor do que eles e nunca vai existir alguém melhor que eles, mas se for pra escolher um, seria: Beethoven!

CSP: Uma colab nacional que você toparia fazer em qualquer momento da sua vida?

Eu sei que deveria fazer uma colab com alguém da música. Mas quando penso em uma colab, pra mim vem youtubers, inclusive essa pessoa já conheci e conversamos bastante sobre música. Meu sonho era falar como ela nos vídeos. Eu adoraria gravar com a Jout Jout. Acho ela incrível!  Seria a colab dos sonhos.

CSP: Uma frase que nunca deve ser dita para um pianista/músico?

Nossa, você deve ser muito bom com os dedos ou Você deveria tocar o meu órgão. NUNCA DIGA ISSO PARA UM PIANISTA!

Conheça mais sobre o trabalho do Franz na web:

Fui em Roraima nascer, em Minas Gerais crescer e em São Paulo ser alguém, sou designer de moda, pós graduado em comunicação e marketing em mídias digitais por formação, blogueiro desde 2006 por um feliz acidente do destino, viciado em café, adoro conversar, ouvir historias e dar conselhos.

Um comentário

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

%d blogueiros gostam disto: