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ESPECIAIS

Ancine realiza no RJ 3ª edição do seminário Mulheres no Audiovisual

Na última sexta-feira (14), a Ancine, em parceria com o Goethe-Institut e a Casa Firjan, realizou a terceira edição no Rio de Janeiro do seminário Mulheres no Audiovisual, que trouxe nomes importantes do mercado brasileiro e também do exterior para jogar luz sobre as conquistas, assim como as dificuldades ainda enfrentadas, das figuras femininas na área.

Idealizado pela diretora da Agência Nacional do Cinema, Débora Ivanov, e planejado pela sua Comissão de Gênero, Raça e Diversidade, presidida por Carolina Costa, o evento neste ano discutiu a importância das políticas públicas para a promoção da equidade de gênero e na distribuição de oportunidades iguais para todos. Era uma proposta ainda abordar o papel da sociedade civil na criação da mudança dentro e fora das telas.

Pro Quot Film

Diante de uma plateia majoritariamente composta por mulheres, a primeira palestrante do seminário foi Barbara Rohm, CEO da Pro Quot Film, criada em 2014 para promover a igualdade de gênero na indústria cinematográfica e televisiva na Alemanha. A executiva falou sobre a sua experiência, estratégias e desafios para empoderar as mulheres no mercado europeu.

Durante a rodada de discussão pela manhã, foram chamadas ao palco a própria Barbara, Krishna Mahon, administradora do grupo Mulheres no Audiovisual Brasil, Mônica Monteiro, vice-presidente da Federação de Mulheres Empreendedoras da CPLP, Paula Neves, membro do Conselho da Diversidade da Associação Brasileira das Desenvolvedoras de Jogos Digitais, Érica de Freitas, idealizadora do projeto Visionárias, Paula Trabulsi, cineasta e fundadora da ASAS, Coletivo Internacional de Inteligência Criativa, e Viviane Ferreira, presidente da Associação dos Profissionais do Audiovisual Negro (APAN).

Racismo e igualdade

A mesa de debate foi comandada por Luciana Barreto, jornalista e ativista pelos direitos humanos. A mediadora começou citando um caso de discriminação sofrida por uma colega de trabalho.

“Eu sou uma das poucas âncoras negras no Brasil e outro dia estava conversando com uma amiga de Brasília, também âncora de TV. Ela me contou um caso que reflete bem essa falsa diversidade que a gente vive aqui. A gente está fazendo um teatro nos últimos tempos. Ela chegou numa grande emissora para entregar seu portfólio e falaram para ela: ‘Meu amor, nós já temos nossa âncora negra’. Esse é o nosso ensaio no Brasil, todo mundo finge que está fazendo diversidade”, acusou Luciana.

Na sequência, Krishna lembrou da necessidade de cuidarmos para a sociedade não retroceder. “A gente não pode esquecer que a gente avançou muito. Estamos num lugar melhor hoje. É muito importante que a gente siga aprendendo, siga unida, siga se ajudando aqui, dando a mão uma para a outra, olhando para o lado para ver se nossas equipes são diversas, se os nossos grupos de trabalho são diversos, se a gente precisa dar oportunidade para uma outra pessoa. Recentemente, a gente conseguiu colocar um roteirista trans negro em uma sala de roteiro da Netflix”, revelou Krishna, ganhado aplausos da plateia.

Também diretora de TV paga da Band, Mônica ressaltou a ideia de puxar mulheres para grandes postos de trabalho. “O que eu tenho que fazer como mulher é puxar essas outras mulheres para junto de mim. Eu tenho obrigação de fazer isso. Chegar onde eu cheguei, num posto de decisão depois de ser selecionada por um homem, agora eu tenho que fazer bonito e trazê-las comigo”, observou Mônica.

Já Érica destacou a ausência de mulheres negras no mercado audiovisual: “Nós não temos mulheres negras produtoras que realmente possam empreender dinheiro e recursos em produtos audiovisuais. Esse é um questionamento. Por que isso acontece? O projeto Visionárias veio muito daí. Eu queria ouvir as diretoras, as meninas da produção, entender o que elas estão pensando e fazendo, saber se elas se reconhecem nesse ambiente. A mulher negra sofre de uma falta de pertencimento absurda no mercado audiovisual”.

Para fechar a rodada da manhã, Viviane levantou uma poderosa reflexão. “As pessoas negras no audiovisual têm que ficar feliz com a existência dos brancos parceiros. É muito importante que as pessoas brancas parceiras que se colocam na luta contra o racismo entendam como é fundamental que elas não se prestem a fazer o jogo sujo do sistema racial. Eu gostaria muito que as pessoas brancas parceiras saíssem daqui refletindo: ‘Se no meu lugar estivesse um negro? Ou se eu abrisse mão de pelo menos um trabalho por mês e sugerisse a quem me chama a buscar uma pessoa negra? Como eu poderia contribuir mais? Como eu conseguiria realmente fazer parte do processo de diversidade no audiovisual desse país?”, questionou Viviane.

British Film Institute

A palestrante da tarde foi Amanda Nevill, CEO do British Film Institute, órgão de fomento à produção audiovisual no Reino Unido. A instituição tem adotado uma política de diversidade com padrões e metas de inclusão que impulsionam a criatividade, engajando as audiências e gerando inovação.

A segunda mesa de debate contou com a participação de Iafa Britz, produtora e membro da diretoria do Sindicato da Indústria Audiovisual (SICAV), Ana Julia Cury Cabral, servidora da Ancine, Clélia Bessa, produtora e conselheira da Brasil Audiovisual Independente (BRAVI), Jorane Castro, diretora norte da Conexão Audiovisual Centro-Oeste, Norte e Nordeste (CONNE), Anna Muylaert, diretora e roteirista, e Daniela Fernandes, diretora de audiovisual da Secretaria de Cultura do Estado da Bahia. A mediação da conversa foi feita por Edileuza Penha de Souza, professora de etnologia visual da imagem do negro no cinema da UnB.

Audiovisual e sociedade

Anna, que dirigiu o premiado filme “Que Horas Ela Volta?” (2014), contou uma situação interessante de bastidores. “A Jéssica (personagem protagonista do longa) no roteiro era negra, e quando chegou na produção ela embranqueceu. E foi todo um debate tipo, ‘cadê as atrizes negras?’. Naquele momento, cinco anos atrás, não havia essas discussões atuais. Eu me lembro de brigar muito, mas acabei sendo convencida. E o argumento que me venceu foi: ‘Seu filme é sobre classismo ou racismo? Porque se você puser a Jéssica negra vai virar uma história sobre racismo. Então sobre o que você quer falar?’. Eu disse, ok, vamos fazer com uma atriz branca. E não me arrependo. A Camila (Márdila) foi maravilhosa. Porém, tempos depois eu entrei com um núcleo criativo na Ancine e a gente começou a desenvolver um documentário sobre as Jéssicas do Brasil. A gente colocou um anúncio no Facebook chamando essas jovens pobres e marginalizadas, que fazem parte da primeira geração da família a entrar na universidade. Chegaram cerca de 800 respostas”, relembrou a cineasta.

Depois, Jorane lembrou de um caso de sororidade que ocorreu em Belém, no Pará, no final de maio. “Existe um festival de street art lá e eles convidam artistas para fazerem intervenções nos muros, paredes etc. Este ano, o evento foi dedicado às mulheres, tendo o título Girl Power. O festival, comandado por um homem branco, convidou 15 artistas. O problema é que todas eram de fora de Belém, nenhum era local. Não perceberam que havia em Belém grafiteiras capacitadas para fazer aquela ação. Quando essas mulheres de fora foram reunidas para apresentação, as de Belém resolveram aparecer e mostrar as outras que existem mulheres fazendo street art naquela região. Houve esse encontro, todas elas conversaram. E qual foi a conclusão? Elas se juntaram. Combinaram que não teria grafite caso as meninas de Belém também não fossem incluídas no projeto. Isso é o verdadeiro girl power“, definiu Jorane.

Para encerrar, Clélia, também professora da PUC-RJ, citou uma fala para seus alunos em sala de aula. “Virei para eles e falei: ‘Você sabe como americano toma café da manhã?’ Eles disseram: ‘Sei’. Depois disse: ‘Você sabe como paraense toma café da manhã?’. Falaram: ‘Não sei’. Então o poder do audiovisual está nas nossas mãos. Nós que temos que mudar”, concluiu, recebendo palmas das convidadas e da plateia.

Assista ao seminário na íntegra abaixo:

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